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Issanidades

 

"Tudo que é sólido se desmancha no ar"

Nos últimos dias, as notícias do câncer recém-descoberto no Gianechinni e do estágio da doença em Steve Jobs me fizeram refletir bastante. Uma doença como essa sempre dá assim um certo pesar, e não foi diferente nesses casos, mas o que me deixou bastante reflexiva foi o fato de que, de um modo bem interessante, há um aspecto simbólico muito forte, pelo menos no meu imaginário, no que diz respeito a essas duas pessoas. Gianechinni simboliza beleza. Jobs, poder.

Se, diante de uma doença qualquer, é inevitável pensar na fragilidade e na efemeridade da vida, no caso desses dois a conversa ganha uma dimensão muito maior, pois se estende para o campo dos símbolos e, então, arrisco-me, sem medo de despejar lugares-comuns que são, a meu ver, sabedoria em estado puro, a afirmar que não há poder, beleza ou dinheiro que se eternizem indefinidamente. Tudo é movimento, fluxo e mudança (como diria um amigo meu, tudo é passageiro, menos o motorista e o cobrador).

Estranho é que, “presos na matrix”, não nos damos conta disso, e passamos a viver as situações transitórias como se fossem definitivas, como se não fossem a ilusão que efetivamente são. Sofremos e nos desgastamos e fazemos bobagem, a fim de acumular tesouros que vão simplesmente se desmanchar no ar. Queremos ser ricos e lindos e poderosos para, no final, como diria a Rita Lee, tudo virar bosta.

Não estou defendendo aqui, entretanto, que nos enfurnemos então numa caverna, ignorando as possibilidades e facilidades que a vida oferece, mas que as dimensionemos, estabelecendo uma escala de valores que realmente “dê a César o que é de César”. Ainda que você seja um ateu convicto (e desconfio que eles existam em bem menor número do que apregoado, haja vista a enorme massa que queima incenso nas bolsas de valores , para o deus Dinheiro, ou a turma imensa que entra em êxtase místico diante dos shoppings espalhados pelo mundo), há algo na experiência humana que é extremamente valioso: amor, afeto, sinergia, sei lá qual é o nome que se dá a esse “algo”, mas ele com certeza é Algo assim, em letras maiúsculas, que perdura de modo independente das circunstâncias (segundo minha fé, dura inclusive para além da morte) e dá sentido ao Grande Mistério que é estar vivo.

 

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