PAREM DE FALAR MAL DA ROTINA
Li o PAREM DE FALAR MAL DA ROTINA, da Elisa Lucinda (atriz, cantora, poeta, mulher fantástica). O livro é delicado divertido. Dá inclusive vontade de assistir à peça que a ele deu origem.
“Ao contrário do que se anuncia, o orgulho é uma forma sofisticada de solidão. E a gente nem percebe sua ocupação. Por exemplo, uma pessoa que está doida para telefonar para o seu amor, resolve não fazê-lo e diz: ‘Não vou ligar para ele, ele é que me ligue’. A partir do momento que se toma essa famigerada decisão, essa pessoa se torna automaticamente cativa do telefone. Começa a dar voltas em torno do aparelho, a cometer delírios auditivos, sonoros, e passa a ter a impressão de que a toda hora o telefone tocou. É uma coisa tão patética que, se ninguém estiver olhando, a gente confere o aparelho para ver se está funcionando mesmo, verificas e não está fora de área. Ligamos para uma amiga e pedimos: ‘Liga pra mim pra ver se meu telefone está bom?’. Somos tão dodóis que nem percebemos a loucura desse processo. Ou seja, nós inventamos a lei e ficamos a obedecê-la como se não tivesse sido criada por nós. A julgar por mim: quantas vezes já telefonei para o Amor escondida de mim? Isso depois de ter combinado comigo que eu não ia ligar! Quantas vezes furei comigo, me desobedeci? Tem gente que tece um verdadeiro organograma das ações de procura entre os dois: ‘ Na semana passada fui eu que liguei, na outra fui eu, e na anterior foi ele, então agora quem deve ligar...’. O problema é que a outra pessoa não tem acesso a esse documento, portanto, ela não sabe que é a vez de ela ligar. Por isso, essa é uma operação de alto risco. Com a criação desta ‘lei’, ‘não vou ligar pra ele ou ela’, outorgamos ao outro o poder de nos libertar dessa decisão. É complicado. Ficamos totalmente na mão do outro. À mercê do outro. Ficamos escravos dele, uma vez eu ninguém sabe quando este outro ligará. Desta maneira, levados pela lógica do orgulho, todo o nosso precioso dia se transforma nesta espera, se arrasta na barra da longa saia dessa espera: ‘Quando será que esse telefone vai tocar, meu Deus? Agora? Hoje à tarde? Amanhã? Depois de amanhã, daqui a uma semana?’. Quem saberá? Eu já vi gente definhar ao lado do aparelho telefônico, sem comer, sem beber, girando em torno do objeto; cachorro sedento e carente em volta da situação, na expectativa do osso que a gente acredita que o outro, em alguma hora, vai jogar. Por isso que eu acho mais barato, mais econômico emocionalmente, a gente telefonar logo, a gente levar logo um fora, ou então libertar os dois. Porque do outro lado da linha o outro, o nosso céu e o nosso inferno, também pode estar esperando o nosso telefonema. O que eu sei é que muitas vezes o orgulho vence a questão porque a gente rouba para ele ganhar. Nesta diversidade de caminhos, nesta pluralidade infinita de esquinas do mundo, os encontros têm a sorte de se dar. É tanta gente. Não é todo mundo que interessa a todo mundo. Pois é, os encontros verdadeiramente amorosos podem ser tão raros durante toda a vida e a gente ainda dificulta?” (p. 61)


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