Brigada das Tias
“Ser dispensada da maternidade também permitiu que eu me tornasse exatamente a pessoa que acho que devia ser: não apenas escritora, não apenas viajante, mas também, de um jeito maravilhoso, tia. Tia sem filhos, para ser exata, o que me deixa em excelente companhia, porque eis um fato espantoso que descobri à margem da minha pesquisa sobre o casamento: quando examinamos toda a variedade de populações humanas de todas as culturas e continentes (mesmo entre os progenitores mais entusiasmados da história, como os irlandeses do século XIX ou os amish contemporâneos), descobrimos que sempre há uns 10% de mulheres, em qualquer população, que nunca têm filhos. O percentual nunca é menor do que esse em qualquer população que seja. Na verdade, na maioria das sociedades o percentual de mulheres que nunca se reproduzem costuma ser muito maior que os 10%, e não é só hoje no mundo ocidental desenvolvido, onde a proporção de mulheres sem filhos tende a oscilar perto dos 50%. Por exemplo, na década de 1920, espantosos 23% das mulheres adultas dos Estados Unidos nunca tiveram filhos. (Não parece uma proporção altíssima para uma época tão conservadora, antes do surgimento do controle legalizado de natalidade? Mas assim foi.) Portanto, o n[úmero pode ser bem alto. Mas nunca fica abaixo de 10%.
Com muita freqüência, as que preferimos não ter filhos somos chamadas de pouco femininas, antinaturais ou egoístas, mas a história nos ensina que sempre houve mulheres que passaram a vida sem filhos. Muitas delas escolheram deliberadamente fugir à maternidade, evitando totalmente o sexo com homens ou aplicando com o máximo cuidado o que as damas vitorianas chamavam de “artes da precaução”. (A irmandade sempre teve os seus segredos e talentos.) É claro que outras mulheres tiveram de suportar involuntariamente a falta de filhos, devido a infertilidade, doenças, solteirice ou falta geral de machos disponíveis por causa das baixas das guerras. Mas, seja qual for a razão, a falta generalizada de filhos não é uma evolução tão moderna quanto tendemos a acreditar.
De qualquer modo, no decorrer da história, o número de mulheres que nunca se tornou mãe é tão grande (tão constantemente grande) que suspeito hoje que um certo grau de mulheres sem filhos é uma adaptação evolucionária da raça humana. Talvez seja não apenas absolutamente legítimo, mas também necessário, que algumas mulheres nunca se reproduzam. É como se, como espécie, precisássemos de uma abundância de mulheres responsáveis, bondosas e sem filhos disponíveis para ajudar de várias maneiras a comunidade maior. Ter e criar filhos consome tanta energia que as mulheres que se tornam mães logo são engolidas por essa tarefa imensa, e até morrem por causa dela. Portanto, talvez precisemos de fêmeas a mais, mulheres adicionais com energia não exaurida, dispostas a entrar na dança e dar apoio à tribo. As mulheres sem filhos sempre foram essenciais na sociedade humana porque geralmente tomam a si a tarefa de cuidar daqueles que não são sua responsabilidade biológica oficial, e nenhum outro grupo faz isso em proporção tão elevada. As mulheres sem filhos sempre administraram orfanatos, escolas e hospitais. São parteiras, freiras e distribuidoras de caridade. Curam os doentes, ensinam as artes e, muitas vezes, se tornam indispensáveis no campo de batalha da vida. Em alguns casos, literalmente. (Florence Nightingale me vem à mente.)
Acho que essas mulheres sem filhos – vamos chamá-las de “Brigada das Tias” – nunca receberam da história as devidas homenagens. São chamadas de egoístas, frígidas, dignas de pena. Há uma idéia muito comum e bem asquerosa que circula por aí sobre mulheres sem filhos e que preciso repetir aqui: as mulheres que não têm filhos podem levar vidas liberadas, ricas e felizes quando jovens, mas vão acabar se arrependendo quando envelhecerem, porque todas morrerão sozinhas, deprimidas e amargas. Com certeza você já ouviu essa bobagem. Só para deixar tudo bem claro: não há nenhum indício sociológico que confirme isso. Na verdade, estudos recentes feitos em lares de idosos americanos para comparar o nível de felicidade das idosas sem filhos com o das idosas com filhos não revelou nenhum padrão especial de sofrimento ou alegria em nenhum dos grupos. Mais eis o que os pesquisadores descobriram que faz as mulheres idosas em geral sofrerem: pobreza e problemas de saúde. Quer se tenha filhos, quer não, a receita é óbvia: economize, use fio dental e cinto de segurança e se mantenha em forma; assim, garanto que algum dia você vai ser uma velhota felicíssima.
É só um pequeno conselho gratuito da titia Liz.
No entanto, por não deixar descendentes, as tias sem filhos tendem a sumir da memória depois de uma simples geração, logo esquecidas, com vidas transitórias como as borboletas. Mas, enquanto vivas, são fundamentais e podem até ser heróicas. Até na história recente dos dois lados da minha família, há casos de tias verdadeiramente magníficas que entraram em ação e salvaram a situação em emergências. Capazes, muitas vezes, de acumular instrução e recursos exatamente por não terem filhos, essas mulheres tinham renda e compaixão em excesso para pagar operações em casos de vida ou morte, para salvar a fazenda da família ou para abrigar uma criança cuja mãe ficou gravemente enferma. Tenho uma amiga que chama esse tipo de tia resgatadora de crianças de “mãe sobressalente”, e o mundo está cheio delas.
Mesmo na minha própria comunidade, posso ver que às vezes fui importantíssima como integrante da Brigada das Tias. O meu serviço não é apenas mimar e estragar a minha sobrinha e o meu sobrinho (embora leve essa função a sério), mas também ser, para o mundo, uma tia itinerante, uma tia embaixadora, que está sempre à mão sempre que alguém precisa de ajuda, em qualquer família. Há pessoas que pude ajudar, às vezes apoiando-as durante anos, porque não sou obrigada, ocmo a mãe seria, a dedicar toda a minha energia e todos os meus recursos à criação de um filho em tempo integral. Há um monte de camisas do time da escola e contas de ortodontista e cursos universitários que jamais terei de pagar, o que libera recursos que podem ser mais bem distribuídos pela comunidade. Dessa maneira, também promovo a vida. Há muitíssimas maneiras de promover a vida. E pode acreditar, todas elas são essenciais.
Certa vez, Jane Austen escreveu a uma parenta cujo primeiro sobrinho acabara de nascer: “Sempre defendi isso, o máximo que pude, a importância das tias. Agora que se tornou tia, você é uma pessoa de certa importância.” Jane sabia o que estava falando. Ela também era uma tia sem filhos, adorada pelos sobrinhos como confidente maravilhosa e sempre lembrada pelos “ataques de riso”.
Por falar em escritores: de uma posição que admito tendenciosa, acho necessário mencionar aqui que Leon Tolstoi, Truman Capoote e as irmãs Bronte foram criados por tias sem filhos depois que as mães naturais morreram ou os abandonaram. Tolstoi afirmou que a tia Toinette foi a maior influência da sua vida, já que ela lhe ensinou “a alegria moral do amor”. O historiador Edward Gibbon, que ficou órfão quando pequeno, foi criado pela amada tia Kitty, que não tinha filhos. John Lennon foi criado pela tia Mimi, que convenceu o menino de que, algum dia, seria um artista importante. A leal tia Annabel de F. Scott Fitzgerald se ofereceu para lhe pagar o curso universitário. O primeiro prédio de Frank Lloyd Wright foi encomendado pelas tias Jane e Nell, solteironas adoráveis que tinham um internato em Spring Green, no estado americano de Wisconsin. Coco Chanel, órfã quando criança, foi criada pela tia Gabrielle, que a ensinou a costurar – um ofício útil para a menina, acho que nisso todos concordamos. Virginia Woolf foi profundamente influenciada pela tia Caroline, solteirona quacre que dedicava a vida a obras de caridade, ouvia vozes e falava com espíritos e que, como Woolf recordou anos depois, parecia “um tipo de profetisa moderna”.
Lembram-se daquele momento fundamental da história literária em que Marcel Proust morde a famosa madeleine e fica tão assoberbado de saudade que não tem opção senão começar a escrever os vários volumes do épico Em Busca do Tempo Perdido? Todo aquele tsunami de saudade eloqüente foi provocado pela lembrança específica da amada tia Leonie de Marcel, que, todo domingo depois da igreja, dividia as suas madeleines com o menino.
E já se perguntou com quem Peter Pan realmente se parecia? O seu criador, J. M. Barrie nos respondeu essa pergunta em 1911. Para ele, a imagem de Peter Pan, a sua essência, o seu maravilhoso espírito de felicidade pode ser encontrado no mundo inteiro, refletido de forma difusa “no rosto de muitas mulheres que não têm filhos”.
Isso é a Brigada das Tias. "
( COMPROMETIDA - Elizabeth Gilbert)
Com muita freqüência, as que preferimos não ter filhos somos chamadas de pouco femininas, antinaturais ou egoístas, mas a história nos ensina que sempre houve mulheres que passaram a vida sem filhos. Muitas delas escolheram deliberadamente fugir à maternidade, evitando totalmente o sexo com homens ou aplicando com o máximo cuidado o que as damas vitorianas chamavam de “artes da precaução”. (A irmandade sempre teve os seus segredos e talentos.) É claro que outras mulheres tiveram de suportar involuntariamente a falta de filhos, devido a infertilidade, doenças, solteirice ou falta geral de machos disponíveis por causa das baixas das guerras. Mas, seja qual for a razão, a falta generalizada de filhos não é uma evolução tão moderna quanto tendemos a acreditar.
De qualquer modo, no decorrer da história, o número de mulheres que nunca se tornou mãe é tão grande (tão constantemente grande) que suspeito hoje que um certo grau de mulheres sem filhos é uma adaptação evolucionária da raça humana. Talvez seja não apenas absolutamente legítimo, mas também necessário, que algumas mulheres nunca se reproduzam. É como se, como espécie, precisássemos de uma abundância de mulheres responsáveis, bondosas e sem filhos disponíveis para ajudar de várias maneiras a comunidade maior. Ter e criar filhos consome tanta energia que as mulheres que se tornam mães logo são engolidas por essa tarefa imensa, e até morrem por causa dela. Portanto, talvez precisemos de fêmeas a mais, mulheres adicionais com energia não exaurida, dispostas a entrar na dança e dar apoio à tribo. As mulheres sem filhos sempre foram essenciais na sociedade humana porque geralmente tomam a si a tarefa de cuidar daqueles que não são sua responsabilidade biológica oficial, e nenhum outro grupo faz isso em proporção tão elevada. As mulheres sem filhos sempre administraram orfanatos, escolas e hospitais. São parteiras, freiras e distribuidoras de caridade. Curam os doentes, ensinam as artes e, muitas vezes, se tornam indispensáveis no campo de batalha da vida. Em alguns casos, literalmente. (Florence Nightingale me vem à mente.)
Acho que essas mulheres sem filhos – vamos chamá-las de “Brigada das Tias” – nunca receberam da história as devidas homenagens. São chamadas de egoístas, frígidas, dignas de pena. Há uma idéia muito comum e bem asquerosa que circula por aí sobre mulheres sem filhos e que preciso repetir aqui: as mulheres que não têm filhos podem levar vidas liberadas, ricas e felizes quando jovens, mas vão acabar se arrependendo quando envelhecerem, porque todas morrerão sozinhas, deprimidas e amargas. Com certeza você já ouviu essa bobagem. Só para deixar tudo bem claro: não há nenhum indício sociológico que confirme isso. Na verdade, estudos recentes feitos em lares de idosos americanos para comparar o nível de felicidade das idosas sem filhos com o das idosas com filhos não revelou nenhum padrão especial de sofrimento ou alegria em nenhum dos grupos. Mais eis o que os pesquisadores descobriram que faz as mulheres idosas em geral sofrerem: pobreza e problemas de saúde. Quer se tenha filhos, quer não, a receita é óbvia: economize, use fio dental e cinto de segurança e se mantenha em forma; assim, garanto que algum dia você vai ser uma velhota felicíssima.
É só um pequeno conselho gratuito da titia Liz.
No entanto, por não deixar descendentes, as tias sem filhos tendem a sumir da memória depois de uma simples geração, logo esquecidas, com vidas transitórias como as borboletas. Mas, enquanto vivas, são fundamentais e podem até ser heróicas. Até na história recente dos dois lados da minha família, há casos de tias verdadeiramente magníficas que entraram em ação e salvaram a situação em emergências. Capazes, muitas vezes, de acumular instrução e recursos exatamente por não terem filhos, essas mulheres tinham renda e compaixão em excesso para pagar operações em casos de vida ou morte, para salvar a fazenda da família ou para abrigar uma criança cuja mãe ficou gravemente enferma. Tenho uma amiga que chama esse tipo de tia resgatadora de crianças de “mãe sobressalente”, e o mundo está cheio delas.
Mesmo na minha própria comunidade, posso ver que às vezes fui importantíssima como integrante da Brigada das Tias. O meu serviço não é apenas mimar e estragar a minha sobrinha e o meu sobrinho (embora leve essa função a sério), mas também ser, para o mundo, uma tia itinerante, uma tia embaixadora, que está sempre à mão sempre que alguém precisa de ajuda, em qualquer família. Há pessoas que pude ajudar, às vezes apoiando-as durante anos, porque não sou obrigada, ocmo a mãe seria, a dedicar toda a minha energia e todos os meus recursos à criação de um filho em tempo integral. Há um monte de camisas do time da escola e contas de ortodontista e cursos universitários que jamais terei de pagar, o que libera recursos que podem ser mais bem distribuídos pela comunidade. Dessa maneira, também promovo a vida. Há muitíssimas maneiras de promover a vida. E pode acreditar, todas elas são essenciais.
Certa vez, Jane Austen escreveu a uma parenta cujo primeiro sobrinho acabara de nascer: “Sempre defendi isso, o máximo que pude, a importância das tias. Agora que se tornou tia, você é uma pessoa de certa importância.” Jane sabia o que estava falando. Ela também era uma tia sem filhos, adorada pelos sobrinhos como confidente maravilhosa e sempre lembrada pelos “ataques de riso”.
Por falar em escritores: de uma posição que admito tendenciosa, acho necessário mencionar aqui que Leon Tolstoi, Truman Capoote e as irmãs Bronte foram criados por tias sem filhos depois que as mães naturais morreram ou os abandonaram. Tolstoi afirmou que a tia Toinette foi a maior influência da sua vida, já que ela lhe ensinou “a alegria moral do amor”. O historiador Edward Gibbon, que ficou órfão quando pequeno, foi criado pela amada tia Kitty, que não tinha filhos. John Lennon foi criado pela tia Mimi, que convenceu o menino de que, algum dia, seria um artista importante. A leal tia Annabel de F. Scott Fitzgerald se ofereceu para lhe pagar o curso universitário. O primeiro prédio de Frank Lloyd Wright foi encomendado pelas tias Jane e Nell, solteironas adoráveis que tinham um internato em Spring Green, no estado americano de Wisconsin. Coco Chanel, órfã quando criança, foi criada pela tia Gabrielle, que a ensinou a costurar – um ofício útil para a menina, acho que nisso todos concordamos. Virginia Woolf foi profundamente influenciada pela tia Caroline, solteirona quacre que dedicava a vida a obras de caridade, ouvia vozes e falava com espíritos e que, como Woolf recordou anos depois, parecia “um tipo de profetisa moderna”.
Lembram-se daquele momento fundamental da história literária em que Marcel Proust morde a famosa madeleine e fica tão assoberbado de saudade que não tem opção senão começar a escrever os vários volumes do épico Em Busca do Tempo Perdido? Todo aquele tsunami de saudade eloqüente foi provocado pela lembrança específica da amada tia Leonie de Marcel, que, todo domingo depois da igreja, dividia as suas madeleines com o menino.
E já se perguntou com quem Peter Pan realmente se parecia? O seu criador, J. M. Barrie nos respondeu essa pergunta em 1911. Para ele, a imagem de Peter Pan, a sua essência, o seu maravilhoso espírito de felicidade pode ser encontrado no mundo inteiro, refletido de forma difusa “no rosto de muitas mulheres que não têm filhos”.
Isso é a Brigada das Tias. "
( COMPROMETIDA - Elizabeth Gilbert)


para este post
Comente aqui!