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Issanidades

 

Feliz Natal!

Enquanto o Ivens não acorda,para usar o notebook dele,aproveito e posto aqui para vocês a descrição do primeiro Natal que Ingrid Betancourt passou na selva, quando foi sequestrada pelas FARC, na Colômbia:


"Mais que tudo, para mim era insuportável a infelicidade que eu atribuía aos membros de minha família. Era o primeiro Natal deles sem meu pai e, para completar, sem mim. De certa forma, sentia-me mais afortunada que eles, pois conseguia imaginá-los juntos para a ceia natalina, dia de meu aniversário. Nada sabiam de mim, ignorando até se eu ainda estava viva. A ideia de meu filho, ainda garoto, ou de minha filha adolescente supliciados pelos horrores que sua imaginação lhes fornecia sobre meu destino me enlouquecia.


Para escapar desse labirinto, ocupei-me em fazer um presépio com o barro retirado da escavação da fossa, moldando imagens vestidas de roupas confeccionadas com folhas chatas de um gênero de cipó tropical que proliferava nos pântanos ao redor. Meu trabalho atraiu a atenção das moças. Yiseth trançou uma linda guirlanda de borboletas, com o papel de alumínio dos maços de cigarros. Outra veio recortar comigo anjos depapelão, que suspendemos no telhado de zinco bem em cima do presépio. Enfim, dois dias antes do Natal Yiseth apareceu com um engenhoso sistema de iluminação. Ela conseguira um estoque de pequenas lâmpadas das lanternas de bolso, que prendera num fio elétrico. Bastava fazer contato com uma pilha de rádio para ter uma iluminação de Natal em plena selva.


Fiquei surpresa ao ver que eles também tinham decorado suas caletas para a ocasião. Alguns tinham feito até pinheiros de Natal com galhos enrolados em algodão da enfermaria e decorados com desenhos infantis.


Na véspera de Natal, Clara e eu nos beijamos. Ela me deu o sabão de sua reserva. Eu fiz para ela um cartão natalino. De certo modo éramos agora uma família. Como acontece com as famílias de verdade, não tínhamos nos escolhido uma à outra. Às vezes, como naquele dia, dá certa tranquilidade de estar juntos. Juntamo-nos para rezar e entoar os villancicos, cantos tradicionais da Colômbia, ajoelhadas no chão defronte de nosso presépio improvisado, como se aquelas músicas pudessem nos levar para casa ainda que fosse por alguns instantes.


Nossos pensamentos partiram bem longe. Os meus viajaram para outro espaço e outro tempo, para onde eu tinha estado um ano antes com meu pai, minha mãe e meus filhos, minha felicidade que parecia ser inamovível, e cuja dimensão só agora apreciava por contraste e com a tristeza que me acabrunhava.


Perdidas em nossas meditações, não tínhamos percebido que havia um monte de gente atrás de nós: Ferney, Edinson, Yiseth, El Mico, Jhon Janer, Caméléon e os demais, que foram cantar conosco. Suas vozes possantes e afinadas enchiam a floresta e pareciam ressoar cada vez mais alto, além das muralhas da vegetação espessa, rumo ao céu, mais longe que as estrelas, na direção daquele Norte místico onde está escrito que Deus tem seu trono e onde eu imaginava que Ele devia nos ouvir, atento à indagação silenciosa de nossos corações, a que só Ele era capaz de responder."


Um Natal abençoado para todos que me leem e têm seus natais imperfeitos e incompletos que, entretanto, nem por isso deixam de ser Natal.


(Fonte: NÃO HÁ SILÊNCIO QUE NÃO TERMINE, Ingrid Betancourt. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p.163).

 

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