Agora que já passou e tirei os curativos, quero contar como foi a minha saga, no dia em que, corajosamente, decidi procurar um local adequado para tratar da minha unha encravada.
Antes disso, preciso dizer que esse ‘encravamento’ foi um dos problemas que Brasília me trouxe (ou agravou?). Manicure nova, já viu, né? Não sei de que forma ela cortou minhas unhas, mas, acredite, eu que nunca sofri com isso passei minha semana de recesso levando topadas inacreditavelmente dolorosas dos meus sobrinhos. No final, o canto esquerdo do pé direito estava com uma bolha enorme de sangue.
Apesar de toda a minha disposição para enrolar e deixar para amanhã, acabei tendo que procurar ajuda, sob o risco de virar uma bela moça frágil sem dedão. Marquei para a terça e fui, impavidamente, gastar preciosos 52 reais num procedimento desconhecido que me prometia devolver a paz para um dedo sofrido. Mal sabia que o preço a pagar seria maior: não era uma questão meramente monetária. Era preciso também oferecer suor, lágrimas e sangue, muito sangue.
O primeiro desafio foi encontrar a loja, no maior shopping de Brasília. Reparem bem, vim de Três Corações, ovinho de cidade encravado no sul de Minas, e me acostumei mal, a transitar por poucas ruas conhecidas e fáceis. Por isso (e não somente por isso!) desenvolvi uma noção espacial que beira o ridículo, o que me fez ficar zanzando, pra lá e pra cá, perguntando para atendentes mal-humoradas e seguindo trajetos que não entendia, mas fingia entender, para não ser mais inconveniente ainda do que me sentia, ao atrapalhar as tediosas vidas das atendentes de quiosque que abordei. Zanzei tanto, passei por alas e mais alas de um mesmo piso (e olha que tinha o endereço, mas a incompetência espacial era maior que tudo), até que, não havendo mais como errar, acertei e fui parar na tal loja.
Loja ou clínica, não sei bem definir, mas se trata de um espaço bem clarinho, cheio de azuis e brancos e transparências, com um punhado de palmilhas e órteses (primeira vez que ouvi falar disso) e creminhos salvadores. Ao fundo, uma saletinha, onde paguei meus pecados.
Antes de começar o procedimento, entretanto, amarguei uns 10 minutos, sentada, com fome, lendo uma Caras antiga e irrelevante, enquanto a moça que iria me atender, gravidíssima, ligava para o INSS, para resolver a licença dela. Quando resolveu me atender, eu já estava preocupada, com receio de ter que fazer o parto dela ali mesmo, no meio de pés cascudos e unhas encravadas.
Mas tudo correu bem, ela encerrou a ligação, reclamou com a colega ao lado (que não seria quem daria o atendimento) que estava com medo da licença dar errado e nos dirigimos, nesse clima otimista e alto-astral, para a saleta de atendimento.
Espichei meu pezão e ela desceu uma luminária maneira, que fez a minha bolha ficar maior ainda. Explicou algumas coisas, cutucou vários lugarezinhos doloridinhos, pediu que evitasse manicures incautas (como se eu não já tivesse jurado isso para mim mesma!) e começou.
Juro que quase morri (e olha que sou conhecida pela frieza na hora da depilação). Ela passava um spray, que deveria ser o anestésico, mas que ardia demais e, imediatamente após, enfiava um negócio compridão o pelo meu canto de unha afora, sem dó nem piedade, intercalando o procedimento a frases encorajadoras como “fique quieta com esse pé ou vou te machucar com a pinça” ou “nossa, sei que dói mesmo, um cara até desmaiou aqui, na semana passada” ou “fique calma, fique calma, tá quase acabando, assim não consigo”.
Quando ela terminou, não acreditei. O alívio foi imediato. O dedo parou de pulsar e eu nem me importei mais com tudo que ela dizia, coisas como “você volta daqui a 48 h e depois a gente corta direitinho suas unhas, pra não dar problema, e você põe uma órtese (!) e tudo vai ficar tranqüilo”.
Acho que renasci. Eu e o meu dedão.