Comentava com o Silvio que gosto de conversar com o pai dele, porque sinto que ele “tem vida interior”. Aparentemente isso é um contra-senso. Afinal, todas as pessoas (pelo menos, acho eu...) têm vida interior, são capazes de abstrair, de se expressar através da linguagem, mas o que quis dizer foi diferente.
Há pessoas que ruminam as experiências que vivem e se tornam sábias. Outras tantas, vão vivendo, sem essa ruminação, e acumulam anos, não sabedoria.
Ruminar a vida, os sofrimentos, as alegrias, as frustrações, as realizações, é algo que acho essencial. O que chamo de ruminar não quer dizer guardar mágoa, rancor. Pelo contrário, tem a ver com um profundo trabalho de “deixa pra lá”, que deve vir das entranhas, de uma consciência que não se adquire numa visitinha periódica a um templo ou mesmo a um analista. Se não é mexer na ferida, certamente é fazer cirurgia, remover tecidos cheios de tumor, muitas vezes sem anestesia.
Para muitas pessoas, as coisas não funcionam assim, e não vou entrar no mérito dessa questão, até porque cada um sabe onde o calo aperta. Minha busca, entretanto, é exatamente essa: auto-conhecimento, serenidade, sabedoria. Ainda estou longe disso, mas com certeza já desenvolvi um faro danado para reconhecer, na multidão, as pessoas que fazem isso. Elas têm uma profundidade que me atrai, e as reconheço em todos os lugares. São raras, mas me são caras, muito caras.
Quando era mais jovem, visitava uma colônia de hansenianos. Eram todos bem velhinhos, remanescentes de uma época em que a lepra (na época, chamava-se assim) condenava o paciente a se afastar do convívio social, dos afetos, para “purgar’ a audácia de ter adoecido. Hoje em dia, as coisas não são mais assim, mas essas pessoas que conheci acabaram ficando por ali, pela Colônia Santa Fé, onde, bem ou mal, tinham construído suas vidas e suas histórias.
Pois bem, a nossa Mocidade Espírita visitava os velhinhos, que adoravam nossas canções juvenis desafinadas (um de nós sempre levava um violão) e nossa conversa desajeitada. Dentre esses velhinhos, estava o Seu Benevides.
O Seu Benevides não tinha orelha, nariz, falanges dos dedos e estava quase cego. Entretanto, foi a pessoa mais linda com que convivi. Era divertido, bem-informado, reconhecia alguns de nós pela voz e sempre nos fazia sair dali mais leves. Íamos visitar, mas acabávamos “visitados”. Ás vezes, chegávamos pesados, carregando nossos problemas “imensos” e ficávamos ali, diante daquele velhinho gente boa, que só tinha de seu um radinho de pilha “pra ouvir a Voz do Brasil”, pequeninos, microscópicos.
Creio que muito disso que sentíamos nele se deve a isso que, na falta de melhor termo, chamo de “vida interior”. Ele pegou uma experiência super difícil (uma das mais difíceis que uma pessoa poderia viver, na Terra) e transformou-a em sabedoria, suavidade. Para fazer isso, deve ter chorado muito pelos cantos, rezado bastante, pensado muito na vida. Daí, transformou limão e limonada...
Para quem chegou, heroicamente, ao final deste post enorme, meus votos de que consigamos, você e eu, chegar (sem tanto sofrimento, espero eu...) a um estágio de evolução espiritual parecido com o dele.
P.S.: Dedico este post à Beatriz, amiga-irmã, que viveu essas experiências ao meu lado.