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Issanidades

 

DOIS FILHOS DE FRANCISCO

A Ana Paula me emprestou o DVD e simplesmente a-m-e-i. Identifiquei-me muito com a história. Meu irmão estava aqui, assistiu também e, como não podia deixar de ser em se tratando de um irmão, pegou no meu pé. A cada cena, eu comentava, comovida:

- Ai, olha só aquele fogão, igual ao da casa da vó...

- Ah, olha lá, parece Itapecerica (terra dos meus pais)...

- Lá em Itapecerica é assim também, né?

- Também já passei por isso, lá em Itapecerica...
Irmão-delicadeza:

- Pô, Issana, quer parar? Todo o mundo aqui sabe que você é uma menina do povo, sofrida, mas... podemos assistir? (não é mesmo muito amável?).

Pior foi agüentar as risadinhas “é isso mesmo” que o Silvio e a namorada do irmão-gentileza deram.

Vou me candidatar ao GENTE QUE FAZ. Ou deveria tentar o SOU BRASILEIRA E NÃO DESISTO NUNCA? Só assim pra ser reconhecida, puxa...

(E eu nem ficava rindo do Silvio, que, apesar da imensa cultura musical que tem, não conhecia NENHUM dos clássicos sertanejos que tocaram durante o filme, que eu acompanhava, palavra por palavra, emocionada com meu jeito rural de ser).

 
 

QUINTA-FEIRA

Há dias que nos surpreendem. Ontem, eu teria duas tarefas chatófilas para fazer: pedir licença no trabalho, para dar uma corridinha (de táxi, pois o Silvio estaria em aula, no horário) na UNESCO, para acompanhar a abertura de envelopes de uma licitação para o Orientador, que obviamente nem imagina o trabalho que me dá fazer esse tipo de “favorzinho” para ele, e começar a fazer cursinho para o Concursão que vou fazer.

Ontem Murphy estava dormindo. Em primeiro lugar, a abertura dos envelopes foi adiada. Em segundo, a-m-e-i voltar a estudar no formatinho “alunos-sentadinhos-professor-lá-na-frente-de-jaleco-passando-matéria-no-quadro-e-a-gente-copiando-e-usando-canetinhas-coloridinhas-com-cheirinho-de-morango”.

O curso é de Regimento Interno, uma matéria de cuja existência eu nem mesmo tinha ouvido falar. Achei que fosse FLANAR na aula, voar geral, mas aproveitei bastante: preenchi oito páginas do meu caderno do Ursinho Puff (ou Pooh?) com todos os espirros que o professor deu, amolei bastante o Silvio (oh, sim, ele também está fazendo o curso... deve ser por isso que curti tanto), falando pelos cotovelos, enquanto o professor anotava no quadro, empurrei o carro (Murphy deu uma acordadinha), que ficou sem bateria, às 11 horas da noite, com a gente exausto e tendo que arrumar malas para viajar hoje e estender roupa que a máquina ficou lavando e tomar um sorvetinho antes de dormir. Chamei um táxi, cancelei o mesmo táxi, saí carregando um amplificador pesadão por um estacionamento imenso, e conseguimos chegar, graças a uma “chupetinha” (dispensem as conotações sexuais, por favor!) que um bom filho de Deus teve paciência de oferecer e que recuperou nossa bateria.

Foi bem divertido. A bateria acabou, mas eu estava tão bem, tão certa de estar no lugar certo fazendo a coisa certa (adoro competir, os cargos têm uns salários i-na-cre-di-tá-veis, trabalha-se 6 horas corridas e por aí vai...), que levei tudo numa boa.
As condições externas podem ser as piores possíveis, mas, se estamos bem por dentro, tudo tem gostinho de aventura, gostinho divertido, até mesmo aulas de Regimento Interno e baterias que falham numa quinta à noite.

O pior é que a recíproca é verdadeira: não há paraíso na Terra que substitua a paz de espírito.

 
 

FUNDAMENTAL

Relendo minha dissertação, percebi o quanto utilizo a palavra “fundamental”. Isso é fundamental, aquilo é fundamental, tudo para mim é assim...

Fiquei pensando então no que considero, no fundo do coração, fundamental de verdade, ou seja, o fundamental do fundamental na minha vida. Lá vai a listinha fundamental:

- Minha família – o aconchego e a torcida irrestrita dos meus familiares são fantásticos. Com meus pais, sei que sempre vou encontrar colinho, afeto e aceitação incondicional;

- Doutrina Espírita – tudo que sou devo a ela. Sem os ensinamentos espíritas, seria mais monstrinho do que sou. O pouco de coisas boas que já fiz nesta vida, fiz movida pelos ideais que desenvolvi a partir desses referenciais. Como diria o Puig (autor não-espírita), todos precisam de bússola e de mapa para viver. Para cada um, essa bússola e esse mapa são diferentes e nem por isso menos respeitáveis. Para mim, enfim, o espiritismo é bússola, é mapa e é, adivinhem só, fundamental;

- Viver bem com o Silvio – o amor por ele é irrestrito e é uma realidade, mas é fundamental também afinar algumas questões e essa é uma necessidade para mim. Quando brigamos, fico muito frustrada e perco a paz;

Acho que minha lista é esta: estabilidade emocional, colinho afetuoso e fé profunda. E para você, o que é FUNDAMENTAL?

 
 

CRIANÇAS E NATUREZA

No domingo passado, foi o Encontro de Crianças do Centro Espírita Irmão Áureo, aqui de Brasília.

O Encontro aconteceu na zona rural de Brazlândia, cidade próxima de Brasília.

O tema foi “O melhor é viver em família” e agrupou crianças dos diferentes postos do Centro.

Fico impressionada como Deus me cerca de cuidados. Exatamente quando eu mais precisava, estava exausta e me arrastei para o trabalho no Encontro, “por obrigação”, ele me oferece este presente: passar uma manhã inteira, cercada de natureza e de criança.

Voltei para casa fisicamente mais exausta ainda, pois o trabalho foi pesadíssimo (Silvio e eu tivemos que “tourear” umas crianças im-pos-sí-veis de bagunceiras!), mas também muito mais tranqüila, com as energias refeitas pelas boas vibrações. Acho que boa parte do meu sucesso na qualificação tem a ver com a paz que eu senti naquele lugar abençoado. Nele, consegui me centrar e dimensionar corretamente os meus sentimentos e as minhas expectativas.

Fui para ajudar e acabei sendo ajudada. Isso sempre acontece.

 
 

COMENTÁRIO DOS COMENTÁRIOS

Durante o meu sumiço, todos foram muito carinhosos. Deixei um recadinho para cada um, na minha caixa de comentários do dia 6/10. Obrigada, amigos!

 
 

QUALIFICAÇÃO

Vou reproduzir trechos de e-mail que mandei para uma amiga, contando sobre o mestrado. Posso acrescentar ainda que me sinto SUPER aliviada por ter vencido essa etapa...

Querida B.,
Só agora estou voltando “à ativa”. Esses últimos dias foram os mais tresloucados da minha vida. Nunca corri tanto, nem na época em que dava aula em três lugares. Sabe, o meu irmão e a namorada estiveram aqui e me dividi entre ler minha dissertação e dar atenção para eles. Isso tudo combinado a uma época super agitada no trabalho...

Foi uma semana “surreal”: meu coração pedia para curtir meu irmão, mostrar a cidade para ele. Minha razão me mandava estudar Habermas. Na sexta-feira, estava num barzinho, tomando batida e dando risadas relaxadas. Na segunda, me vi numa banca de qualificação de mestrado. Você, que me conhece há milênios e sabe o quanto gosto das coisas arrumadinhas, esquematizadas, planejadas, deve imaginar a lou-cu-ra disso tudo e o quanto fiquei cansada.

Durante a qualificação, me senti muito bem. É legal ver as pessoas dando opiniões sobre seu trabalho e, melhor ainda, “qualificando-o’, dizendo que ele tem o que acrescentar. É claro que todos deram milhares de sugestões que implicam milhares de trabalhos dobrados para mim, que estou apertadíssima nos prazos: até primeira semana de dezembro, vou ter que ler mais um punhado de livros, redigir muitos acréscimos ao que escrevi e mandar para o Orientador. Depois, mandar para revisão, imprimir dentro de um formato super exigente e dar entrada nos papéis, para defender em fevereiro, que é meu último prazo na UNICAMP! Resultado: meu Natal e meu Ano-Novo vão “pro saco”. Entretanto, senti um alívio tremendo por ter superado a fase e por não ter sido execrada. Agora, é me preparar para a defesa!

 
 

MARANHÃO

Chegamos em São Luís no dia anterior ao do evento, pois os outros vôos eram todos inviáveis. Dessa forma, chegamos na tarde da segunda-feira e conseguimos fazer um “city tour”. Foi uma boa alternativa, pois a intenção era conhecer a cidade, mesmo que de forma superficial. O objetivo foi alcançado, apesar de não fazer meu estilo ficar descendo e subindo na van, de 5 em 5 minutos, acompanhando o guia para todo lugar, sem independência e sem chance de curtir um ou outro recanto.

A cidade é muito bonita. Fiquei particularmente apaixonada pelo centro histórico. Amo estar diante de um prédio onde outras pessoas viveram suas histórias. Em alguns lugares do centro histórico, que está sendo reformado, nem mesmo a fiação aparece, pois é subterrânea, e há uns charmosíssimos lampiões pelas calçadas. A cidade me lembrou uma Tiradentes maior e – detalhe importantíssimo para uma mineira – perto do mar.

Comprei doce de buriti, para meus sogros, e o indefectível ímã de geladeira para a coleção do Silvio (que já está virando “minha” coleção também!). No almoço da segunda, comi peixe com arroz de cuxá, uma mistura de diversos frutos do mar, coisa muito gostosa.

No dia da reunião, trabalhei pra caramba, como sempre acontece nessas ocasiões, com o agravante de que o pessoal, apesar de simpaticíssimo, deixou alguns furos. Acompanhem o diálogo:

- PROFESSORA, O MATERIAL NÃO CHEGOU?? COMO ASSIM? Mas eu liguei para a senhora, para ver se estava tudo certo!!!! ­– Issana, descabelada e desesperada, descobrindo que TODO o material para o encontro não tinha chegado, sendo que o Secretário da Educação Básica do MEC (meu mega-chefe, aquele que fica “antes” do Ministro, na hierarquia) tinha podido prestigiar justamente o encontro, adivinhem de onde, do Maranhão.

- Pronto, Issana, chegou, sim... Você me mandou por e-mail e eu recebi direitinho – leia isso com sotaque maranhense e muita tranqüilidade no olhar. Acontece que o que mandei por e-mail era um arquivinho minúsculo, e o material a que me referia eram caixas e caixas, cheias de cartazes, fôlderes, guias, fichas de inscrição e de adesão. Enfim, a enxada com que trabalharíamos naquele dia!

Corri para ligar para Brasília, para que eles rastreassem a encomenda.Fiz a ligação de um orelhão, com poucas unidades no cartão, já que meu celular é pai-de-santo seletivo e, além de só receber chamadas, limita seu trabalho a Brasília. Só depois de confirmar que o material tinha chegado, sim, e estava num depósito dos Correios no fim do mundo, e de ‘tocar’ a simpática organizadora e seu KA para buscar os pacotes, é que pude respirar um pouco.

Além de correr muito, também retorci muito as mãos, comi todas as unhas da mão e suei frio, pois o DataShow que eles arrumaram não funcionava e, troca daqui, busca ali, troca acolá, minha chefe começou a apresentação sem o apoio visual. Ai, meus sais...

No final, deu tudo certo, foi um sucesso, mas eu estava e-xa-us-ta. Passei muito aperto, muito, muito mesmo, pois todos os que identificavam problemas se dirigiam a quem? À senhora Pró-Letramento. Não seria tudo mais fácil se cada um cuidasse minuciosamente do que lhe cabia?